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Pimenta na Língua

Tudo sobre alguém que não tem papas na língua

Devem gostar de gozar com a minha cara!!!

Não encontro outra explicação, devo ter mesmo cara de quem gosta de ser gozada ou então cara de quem não tem sentimentos!

Vou a passar com a minha mãe num local público e encontramos uma pessoa conhecida. Como toda a gente se preocupa imenso comigo, fez questão de perguntar se eu já tinha arranjado trabalho, com a minha vontade de a mandar para o caralho, simpaticamente lhe respondi que não. Sabem o que é que eu obtive de resposta? Algo como: "pois, compreendo-te, a minha filha também está em casa há uns meses enquanto a empresa resolve um problema e só está a receber 1500 euros por mês, menos de metade do ordenado dela"!!!!!!

Nem pensei, só lhe disse "Então e está a queixar-se? Estou há ano e meio em casa sem receber um cêntimo"!!! E vim-me embora!!!

 

As pessoa devem mesmo gostar de ver os outros na merda!

O texto do Júlio

Há dias, ao passar pela internet, bati com os olhos num texto do Júlio Isidro, fiquei com alguma curiosidade e fui lê-lo, e dei por mim a pensar na quantidade de gente que vi ter coragem e partir... coragem essa que eu bem tento ganhar.

Leiam, vale a pena.

 

“A MALA DE CARTÃO SÉCULO XXI
Adeus mãezinha vou partir! E os pais dos jovens recém formados ainda muito longe de reformados, vertem lágrimas no adeus. Vão-se fazer à vida porque , quem de direito os aconselhou. O mundo global é assim, hoje aqui sem nada, amanhã ali com pouco mais. Engenheiro cá , tem equivalência lá a porteiro de hotel.

Arquitecta aqui, vai para mulher a dias ali. Professor de inglês por cá, vale guia turístico algures. Tudo boas cabeças, bem habilitados, custaram um dinheirão aos pais e a nós contribuintes. Um dia destes, já passados aqueles primeiros tempos para assentar ganhando qualquer coisa em profissões de ocasião, serão bons engenheiros, arquitectos, médicos, professores ou investigadores nas terras que os acolheram.Claro que as enfermeiras entram directas no seu ofício porque só quem não pensa é que acha que tudo se resolve com pensos rápidos.

Fizeram bom negócio esses países, transferências a custo zero. Daqui a uns anos esta elite cá formada, será o orgulho dos pais, mais velhos, com pensões de míngua e cada vez mais saudosos. Os jovens emigrantes forçados, talvez até sejam citados como exemplo deste país tão generoso que fabrica talentos para exportar. E condecorados quando forem primeiras páginas dos jornais lá de fora. De repente, tal como acontece em alguns casos de amor de romance de cordel, as saudades dos que cá ficaram são tão grandes que o mesmo que lhes apontou o dedo para a fronteira, tem um rebate de alma e clama:- Vem, vem amigo que o sol, a sardinha assada, a alheira, o futebol, a praia, o fado esperam-te e eu que não tinha consciência do que disse, quando disse.

Os emigrantes já radicados, bem pagos, com garantia de trabalho reconhecido e família em fase de construção, imaginam que ouviram mal. Vem?
Agora já é tarde! Não contem connosco para engenheirar, arquitectar, ensinar, investigar, medicar e fazer pensos porque aqui enfermeira não enferma do valor/hora daí, menor do que empregada doméstica.

Vem? Vem para cá tu e traz outros amigos também. (desculpa lá ó Zeca mas o trocadilho é bom).

Nós os mexilhões, continuamos agarrados a esta jangada de pedra porque já somos velhos, todos com mais de 40 anos. Como não podemos…escrevemos.
Ouve filho, manda-me uma carta de chamada que eu vou para concierge em Paris, desde que não seja num arrondissement três chic….

Querida filha, será que nos bancos da City precisam de limpesa? Só do pó e esvaziar cestos de papeis não comprometedores.
Meu neto favorito, se achares que ainda sirvo para vender jornais numa banca em Bruxelas, conta comigo.

Neste vai-vem quem vai….não vem!
A jangada vai ficando mais leve, mas insustentável como o ser.

Voltei ao desespero!

Já por aqui tinha dito que este mês tinha estado a tomar conta de um casalinho de gémeos de uns colegas, enquanto as crianças não tinham entrada na creche. O que fez com que tivesse um mês com rotinas, em que tinha horas para tudo, tempo para nada e dores de cabeça horríveis. Mas no meio disto tudo preferia que assim continuasse, porque  esta semana entraram para a creche, e agora aqui estou eu, de novo sem rotinas, sem muitos motivos para sair da cama de manhã e novamente desesperada por não conseguir arranjar trabalho.

Agora, é esperar por um anjinho da guarda ou por um bocadinho de sorte para arranjar alguma coisa.

Não, se calhar o melhor é mesmo procurar ou arranjar uma cunha, porque parece que neste país só assim.