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Pimenta na Língua

Tudo sobre alguém que não tem papas na língua

O texto do Júlio

Há dias, ao passar pela internet, bati com os olhos num texto do Júlio Isidro, fiquei com alguma curiosidade e fui lê-lo, e dei por mim a pensar na quantidade de gente que vi ter coragem e partir... coragem essa que eu bem tento ganhar.

Leiam, vale a pena.

 

“A MALA DE CARTÃO SÉCULO XXI
Adeus mãezinha vou partir! E os pais dos jovens recém formados ainda muito longe de reformados, vertem lágrimas no adeus. Vão-se fazer à vida porque , quem de direito os aconselhou. O mundo global é assim, hoje aqui sem nada, amanhã ali com pouco mais. Engenheiro cá , tem equivalência lá a porteiro de hotel.

Arquitecta aqui, vai para mulher a dias ali. Professor de inglês por cá, vale guia turístico algures. Tudo boas cabeças, bem habilitados, custaram um dinheirão aos pais e a nós contribuintes. Um dia destes, já passados aqueles primeiros tempos para assentar ganhando qualquer coisa em profissões de ocasião, serão bons engenheiros, arquitectos, médicos, professores ou investigadores nas terras que os acolheram.Claro que as enfermeiras entram directas no seu ofício porque só quem não pensa é que acha que tudo se resolve com pensos rápidos.

Fizeram bom negócio esses países, transferências a custo zero. Daqui a uns anos esta elite cá formada, será o orgulho dos pais, mais velhos, com pensões de míngua e cada vez mais saudosos. Os jovens emigrantes forçados, talvez até sejam citados como exemplo deste país tão generoso que fabrica talentos para exportar. E condecorados quando forem primeiras páginas dos jornais lá de fora. De repente, tal como acontece em alguns casos de amor de romance de cordel, as saudades dos que cá ficaram são tão grandes que o mesmo que lhes apontou o dedo para a fronteira, tem um rebate de alma e clama:- Vem, vem amigo que o sol, a sardinha assada, a alheira, o futebol, a praia, o fado esperam-te e eu que não tinha consciência do que disse, quando disse.

Os emigrantes já radicados, bem pagos, com garantia de trabalho reconhecido e família em fase de construção, imaginam que ouviram mal. Vem?
Agora já é tarde! Não contem connosco para engenheirar, arquitectar, ensinar, investigar, medicar e fazer pensos porque aqui enfermeira não enferma do valor/hora daí, menor do que empregada doméstica.

Vem? Vem para cá tu e traz outros amigos também. (desculpa lá ó Zeca mas o trocadilho é bom).

Nós os mexilhões, continuamos agarrados a esta jangada de pedra porque já somos velhos, todos com mais de 40 anos. Como não podemos…escrevemos.
Ouve filho, manda-me uma carta de chamada que eu vou para concierge em Paris, desde que não seja num arrondissement três chic….

Querida filha, será que nos bancos da City precisam de limpesa? Só do pó e esvaziar cestos de papeis não comprometedores.
Meu neto favorito, se achares que ainda sirvo para vender jornais numa banca em Bruxelas, conta comigo.

Neste vai-vem quem vai….não vem!
A jangada vai ficando mais leve, mas insustentável como o ser.

Eu ainda lá ando

Dei início ao curso de espanhol há umas semanas.

Só esta semana já desistiram dois alunos e pelos melhores motivos. Um arranjou um estágio profissional na sua área, e outra também conseguiu um contrato de trabalho de um ano também na área dela (que por acaso também é a minha). Mas é aqui que me sinto dividida. Fico feliz por terem arranjado trabalho, fico com esperança que também me aconteça a mesma coisa, mas depois ainda aqui estou, ainda continuo a ir ao Espanhol e desempregada.

É triste viver aqui...

Tenho dias em que consigo estar bem. Consigo "esquecer" por momentos que não tenho trabalho, que tenho uma vida pela frente que devia estar encaminhada e já devia estar fora da casa dos pais.  E nesses dias, em que esqueço, consigo estar feliz. Depois, há dias em que só me aptece desaparecer, que nada para mim  faz sentido, penso que nunca deveria ter ido para a universidade, que estaria bem melhor agora se tivesse arranjado trabalho numa loja em vez de ir estudar.

Tenho vergonha de viver num país que só emprega gente que tem conhecimentos nas empresas, nas intituições, onde quer que seja. Tenho pena de viver num país onde predomina o factor Cunha e não o factor competência, num país que mete os desempregados a fazer formações que nada têm a ver com a área em que estudámos, simplesmente para baixar números de desemprego.

É triste ter que ir embora, deixar família, amigos. Mas se não for assim, este país não nos traz futuro. Já pensei em ir embora, e acho que é isso que tenho de fazer muito brevemente.

 

 

"Então Rita ainda não arranjaste nada?"

... É esta merda que oiço cada vez que saio à rua e me cruzo com alguém conhecido.

Já mostro má cara, já começo a desviar-me das pessoas e vou começar a responder mal.

Vou começar a perguntar se têm trabalho para me oferecer que se não tiverem para se calarem e se meterem na vida delas! Já me chega tentar esquecer por uns minutos que não tenho trabalho e não estar sempre a pensar no assunto e vêm os outros bater na mesma tecla.

Chatos de merda.

Desespero

Epa há dias em que me meto a pensar se fiz mal a alguém nesta vida!

Faz em Dezembro um ano em que estou em casa, que não encontro trabalho, que vou a entrevista e que não fico com a merda do lugar.

Não me venham dizer para procurar fora da minha área, que como é óbvio, já tirei da cabeça que vou arranjar alguma coisa da minha área. Mas sinceramente começo a pensar que isto é castigo. Não sei porquê porque não fiz mal a ninguém, mas quando começo a ver toda a malta à minha volta a trabalhar, toda a gente a conseguir e eu nada, começo a bater mal da cabeça.

Já não suporto estar mais nesta casa. Já não consigo ouvir a minha mãe a mandar-me ir trabalhar, a dizer que não faço nada, que isto não é vida para ninguém. O meu pai que diz que eu não devo é querer trabalhar.

Acho que em breve vou dar em doida, e isso começa a assustar-me.

Vai-te lamentar para outro lado

Já toda a gente sabe que quem tem cunhas está safo.

Eu como não as tenho estou lixada, mas pronto, não interessa agora.

Tenho uma colega minha que em Dezembro conseguiu arranjar um estágio profissional para a área dela a 5 minutos a pé de casa. E como é que ela conseguiu arranjar? Porque o pai conhece os patrões e foi lá pedir, como até estavam a precisar chamaram-na de imediato.

Eu também conheço os patrões, conheço a empresa e sei como toda a gente sabe, inclusive a minha colega, que eles não são pessoas de andar a gozar com os outros e que de certeza absoluta que se eles gostarem dela que lhe fazem um contrato, porque precisam de alguém.

Mas não, o que ela gosta é de gritar ao mundo a dizer que quase de certeza que vem embora agora em Dezembro e que vai ficar desempregada e que não sou só eu e blá blá blá.

Aquela gaja, ainda não ficou sem trabalho, ainda lhe faltam uns meses pela frente, mas desde que lá entrou que anda a chorar-se a dizer que vai ficar desempregada.

Isto não é gozar com os desempregados?

Passa por mim "então já arranjaste alguma coisa? Pois, deixa lá não és só tu, eu  de certeza que me venho embora era sorte a mais". Opa a sério, ando desde dezembro a ouvir a mesma coisa da boca dela e dos pais dela. Parece que é a gozar com os que não têm trabalho, parece que é para depois andar aí a dizer,"olha vieram-me dizer que gostaram muito de mim e pediram-me para ficar".

Os pais dela passam por mim e a história é a mesma.

Fdx, eu não tenho trabalho, ela tem trabalho, ainda o tem garantido até dezembro, quase de certeza que lhe vão meter a merda de um contrato à frente para assinar e continua a chorar.

Quem tem de chorar sou eu que estou quase à um ano em casa sem arranjar a merda de um trabalho, e não ando aí pela rua a lamentar-me a quem me aparece à frente,faço-o em casa sozinha.